sábado, 31 de março de 2012

Venho reclamando muito ultimamente da quantidade de coisas que tenho que fazer. Das obrigações, da pressão. Durante a semana o sono é meu melhor companheiro, não desgruda nem por um segundo. Os livros, os textos, os trabalhos parecem intermináveis. E apesar de todas as reclamações, está sendo maravilhoso. É como se agora eu pudesse entender o que realmente era o meu desejo. O que eu queria ser quando crescer.
Pode parecer besteira, mas a maioria das pessoas sabe o quanto é difícil escolher uma profissão pra vida toda. É uma escolha muito dura, chega a dar medo na gente. No primeiro vestibular tinha dezessete anos e decidi fazer psicologia. O motivo pelo qual tomei essa decisão foi a minha vontade de ajudar os outros e, principalmente as crianças. Achava que através da psicologia eu fosse capaz de diminuir o sofrimento das pessoas. Só não percebi que estava deixando um pouco de lado o que gostava de fazer: ler e escrever. E assim foi. No segundo semestre de 2009 começaram as aulas. E eu era a mais nova estudante de psicologia da UFRJ, e como me orgulhava desse status. Os meses foram se passando e cada vez mais eu percebia que tinha algo fora do lugar. Pouco ou quase nada me encantava no curso. Às vezes me sentia um peixe fora da água. Primeiro estágio: um ou dois meses e desisti. Segundo estágio: um ou dois meses e desisti. Faltava algo. Eu não me via produzindo. A minha necessidade de produzir, de ver as coisas acontecer é urgente. Não sou do tipo calma, paciente, daquelas que escuta. Sou do tipo que fala, que quer mudar o que acha errado, e rápido se possível. A psicologia não me ofereceu isso. Eu não sou do tipo psicóloga.
Demorei dois anos para perceber que o que me faltava na psicologia, poderia encontrar na comunicação. E assim decidi trancar o curso para fazer vestibular de novo. Foram três meses de curso pré-vestibular. Pode parecer pouco tempo, mas para uma geminiana um dia já é suficiente para mudar de idéia sobre qualquer assunto. Mas não. Agora com vinte anos eu tinha plena certeza do que queria fazer. Quero escrever para que os outros possam saber de coisas que eles nunca imaginariam, quero descobrir o que eu nunca imaginei saber, quero contar histórias, quero denunciar o que estiver errado, quero ir atrás da mudança. Portanto, quando me pego reclamando da intensidade do curso de jornalismo, paro, penso e sigo em frente. Foi isso que escolhi, é essa a dinâmica que quero e preciso daqui pra frente.
 Aprendi com essa experiência que nunca é tarde para buscar o que se quer. Errado seria ver o tempo passar e com ele o meu sonho. Se precisar mudar, mude. Pode ser que mude dez vezes. Mas isso não é problema. Problema é ficar na ilusão, ficar no sonho. Arriscar a mudança sempre vale a pena.

sexta-feira, 23 de março de 2012

E depois de assistir "KONY 2012"?
Há algumas semanas o vídeo KONY 2012 se tornou um hit da internet. Todos assistiram, compartilharam, e se revoltaram. Além dos milhares de acessos ao youtube, o vídeo gerou muita polêmica. Há quem diga que foi tudo uma armação. Uma jogada dos EUA para poder justificar uma possível invasão militar em Uganda. Já que a sociedade quer deter KONI, nada mais justo que o exercito americano aportasse em terras africanas para proclamar a paz. Assim como na invasão ao Iraque e ao Afeganistão, a estratégia é identificar um vilão. E depois ir atrás dele no seu respectivo país. Ele foi descoberto e mostrado ao mundo inteiro, seu nome é Joseph Kony. Os argumentos podem até fazer sentido, mas se é ou não parte da tal teoria da conspiração ninguém nunca terá certeza.
Outra questão que surgiu após o fenômeno KONY é resumida de maneira irônica nesta frase: “you retweet and post on facebook about Kony 2012? Tell me more about how you´ve always cared about the ugandan kids.” De maneira irônica a frase provoca outra pergunta: E você, o que tem feito pelas crianças africanas além de compartilhar um vídeo? Mostrar-se consciente através das redes sociais, compartilhar links, e vídeos relacionados ao tema é importante, mas não é suficiente. A questão não é simples. Uma, dez ou um milhão de pessoas talvez não sejam capazes de mudar isto. No entanto, ficar parado, sem dúvida alguma, também não. Se você acha que alguma coisa está fora da ordem, vá atrás do que acha certo. Falar, se revoltar sem sair do lugar não muda nada.
O vídeo mostrou o que já vem acontecendo a décadas na África. Independente do objetivo com o qual o vídeo foi criado, ele chama a atenção para uma realidade que muitos não conhecem. Para quem se interessar pelo assunto e quiser entender melhor o que as crianças retratadas no documentário sentem, indico um livro chamado “Muito longe de casa”. Ishmael Beah foi um menino soldado em Serra Leoa e ao longo do livro ele relata com todos os detalhes como foi sua infância – se é que matar, roubar e se drogar faz parte do que é considerado infância.
Espero que a atenção para o que acontece na África não dure apenas 30 minutos como no vídeo.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Tudo começou com uma vontade absurda de fugir da minha realidade. Pensei, pensei e resolvi concretizar um sonho de muitos anos. Trabalho voluntário na África. E assim fui atrás de preço, projetos, datas. Duas semanas depois estava com as passagens na mão, mala pronta e aperto no coração. Estava ansiosa e morrendo de medo. Seria minha primeira viagem sozinha... e na África. Senti-me corajosa e percebi que teria de seguir assim até o ultimo momento. No dia 11 de janeiro embarquei com destino a Cidade do Cabo.
Foram três semanas morando em um albergue com outros doze voluntários – dez deles eram brasileiros. Dividindo quarto, comida, experiências. O dia começava às oito horas da manhã com destino ao hospital Sarah Fox em Athlone, um bairro um pouco afastado. O trabalho começava as nove e ia até as quatro da tarde. Lá eu e mais oito brasileiros tínhamos como trabalho cuidar de crianças em fase de recuperação. As crianças lá internadas sofriam de alguma doença –a grande maioria AIDS e tuberculose- ou haviam sofrido abuso sexual ou passavam por sérios problemas em casa. Enfim, a melhor solução era ficar no hospital até que surgisse uma oportunidade melhor.


No primeiro dia, uma enfermeira me deu a mão de uma menina bem magrinha com o cabelo raspado, dentes escuros e disse: “Toma, ela é cega.”. Respirei fundo e pensei que aquele seria o meu dia a dia, não poderia me abalar logo no primeiro momento. Coloquei a menina sentada no banco ao meu lado e tentei conversar em inglês. Para minha surpresa –pois lá a maioria das crianças fala xhosa, e não inglês- ela começou a cantar uma música linda e em um inglês perfeito. As lágrimas foram inevitáveis. Naquele momento tive uma amostra do que seriam as próximas semanas mais bonitas da minha vida.
Logo de cara me apaixonei por uma gordinha que não tirava o sorriso do rosto por nada, mesmo com todas as outras vinte crianças esperneando, ela continuava sorrindo. Sempre com os bracinhos abertos esperando alguém que a abraçasse. Não precisava de colo, atenção integral. Um beijo na maior bochecha que já vi era suficiente para Sinawo. A primeira semana foi ao lado dela, brincando, colocando no colo, defendendo dos outros meninos, tirando foto. Até que sua mãe apareceu para levá-la embora. Novamente as lágrimas foram mais fortes que a razão. Tranquei-me no banheiro para não ver sua partida. Dizer adeus naquele momento ia doer muito. Para que fique claro, os pais são autorizados a levar as crianças para passar o final de semana com a condição de deixá-los no hospital segunda feira da mesma forma que partiram, alimentados e remediados. Quando voltei do almoço Sinawo estava lá, me esperando com os olhinhos cheios de lágrima e as mãozinhas inquietas pedindo colo. Perguntei a enfermeira o que havia acontecido e ela me respondeu que a assistente social não havia permitido a saída para o final de semana. A mãe da menina não estava apta a cuidar da filha no final de semana. Nem gosto de imaginar o porque. Sinawo não pareceu ter se importado muito, e alguns minutos depois já estava brincando de novo como se nada tivesse acontecido. Meu amor por ela, o carinho, só aumentavam. Até que sua mãe voltou. Grande, gorda, com aqueles vestidos longos e estampados, lenço na cabeça, pisando firme. Abriu a portinha da sala de recreação, pegou Sinawo pelos braços e a levou. Simples assim. Enquanto ela olhava para mim, gritando “mamy, mamy”, chorando, meu mundo caiu. Sai correndo para o banheiro de novo e chorei como se tivesse perdido alguém muito próximo. E foi o que de fato aconteceu. Minha Sinawo estava indo embora.

domingo, 18 de março de 2012

Desde criança gostei de escrever. Comecei com as poesias e até hoje minha avó as tem guardadas. Os anos se passaram e fui desistindo da poesia. Uma professora da quinta série se não me engano, obrigou a minha turma a fazer um diário. Toda semana tínhamos que mostrar o diário completo, valendo nota. Começou como uma obrigação que logo se transformou em uma atividade prazerosa e hoje é viciante. O diário se tornou um companheiro, um amigo muito compreensivo. Ele não diz nada, mas é justamente o seu silêncio que faz com que eu consiga compreender melhor minhas confusões. A criação desse blog foi baseada nessa minha necessidade de escrever. E mais ainda. Nesse ano, tive a coragem de mudar de curso na faculdade. Estudava psicologia e mudei para o jornalismo. O detalhe de ter tido a “coragem de mudar para o jornalismo” fica para outro post. Portanto, mais que a necessidade de escrever para me entender melhor, surge agora a exigência da profissão. Todo jornalista que se preze deve escrever minimamente bem. Pretendo usar esse blog como um exercício para um dia alcançar esse mínimo. Minha avó continua achando que sou poeta. E eu vou sempre acreditar nela.