quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pra te lembrar


“Mais leve que o ar,
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar...”

 
Era uma história de amor. É uma história de amor. Nenhum dos dois conseguia seguir em frente. Era quase impossível criar um caminho para frente. Eles só pensavam um no outro, o outro no um. O coração clamava pelo outro. Nenhum sorriso seria tão sincero quanto aqueles dois juntos. Juntos que formavam um. Uma sintonia que afirmava suas identidades e juntava suas almas. Seria a vida autora da separação. Só poderia ser ela... Eles não poderiam ser tão cegos assim ao ponto de se deixarem. Apenas deixarem, isso é verdade. Esquecer não dava. Meses se passavam e o vazio voltava. Histórias eram vividas e a saudade apertava. Primeiro começava na dúvida e depois na certeza que a dor era pela falta do outro. Dizem por aí que essa vida é uma só, mas eles pareciam ignorar. Submetiam seus corações à angustia do depois. Deixavam o romance para mais tarde. Talvez estejam certos. Preferem experimentar tudo aquilo que a vida oferece para depois, enfim, ficarem juntos para todo o fim. É certo que são volúveis. Tudo bem. Só não esqueçam que o tempo pode torná-los tão maduros a ponto de desacreditarem no amor. Perderem a fé nessa verdade, tão de vocês, só de vocês. Naquilo que só vocês sentem, quando estão juntos ou separados. Olha, é perigoso deixar o tempo levar. Ele pode levá-los para outros alguéns, diferentes de vocês. Tomem tento...

 

domingo, 5 de agosto de 2012


Eles vieram me visitar. Passaram a semana inteira comigo. Preparei suas refeições, os alimentei do mesmo jeito que fazia meses atrás. Brincamos todos os sete dias, como se não houvesse medo ou doença que impedisse esse contato. Botei no colo, nas costas, fiz cosquinha na barriga... O carinho era o mesmo, os sorrisos não mudaram em nada. Eram as minhas crianças, os anjos que tive que deixar na África. Assim como na vida real, tivemos que nos despedir. Não sei qual despedida foi mais dura. No sonho desta noite eram eles que partiam e me deixavam aqui, impotente diante do adeus. “Vocês vão me deixar?” perguntava eu a mais velha. Ela me responde com um sim mudo. E assim foram de mãos dadas pela porta da minha casa. O inconsciente prega cada peça na gente...

Nunca vou deixá-los. Estão entranhados em minha alma, no meu coração. Cada gesto, cada palavra não pronunciada ou compreendida de vocês, construiu quem sou e o que quero ser daqui para frente. Agora posso compreender o que é UBUNTU. Compreendo que, assim como “saudade” é uma palavra e um sentimento puramente brasileiro, Ubuntu é Africa. Não tem explicação, tradução, não é mensurável. O significado dessa ideologia só pode ser entendido quando vivido, experenciado na pele do abraço. Ubuntu, meus amores, minha vida, foram vocês que me ensinaram, sem que pudessem perceber.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Vai ser livre, passarinho.


Vai ser livre.
Fuja dessa gaiola.
Liberte-se.
Esqueça que um dia algo te prendeu.

Largue a angústia e o medo.
Respire e não se lembre da dor.

Infla o peito
de amor.

A dor não precisa existir.
Foi você quem inventou.
Desconstrua.

Deixe a energia fluir.
Solte asas, pernas e penas.
Solte tudo. Grite. Voa!

Livrai os pensamentos.
Livrai a cabeça.
Liberta a alma.

Aproveita a pouca idade e vai sonhar.
Vai buscar o que te importa.
Vai. Vai realizar.

Aceite o chamado da vida.
Sai do aprisionamento.
Escapa pelas grades. E voa...


Apodere-se da força que já tem.
Liberta-te a ti mesmo e
vai ser livre.

Se joga de peito no que aparecer.
Acolhe o que vier.

Agarra a vida, passarinho.

Agora, só agora, não pensa.
Segue o vento.

Segue para frente.

Vai sem caminho.

Escolhe o caminho.
Erra, tropeça, levanta, levanta voo.

Vai ser livre.
 

domingo, 29 de julho de 2012

Menos palavras ao vento


Mesa de bar, cabeças abaixadas, olhos fixos na tela do celular. Alguém tenta inserir algum assunto e nada de olhos ou ouvidos reagirem. Além da visão, a audição é outro sentido que ficou prejudicado por conta das modernidades tecnológicas. Porque se tornou tão difícil escutar o outro? Ouvir e ser ouvido. Falar com a certeza que haverá uma resposta de alguém que lhe presta atenção. Ouvir sem esperar nada em troca. Ter paciência para o relato do outro. Não é ficar calado durante horas de monólogos intermináveis e entediantes, mas de conversa. Desabafo, que seja.
É como se houvesse uma ânsia em derramar tudo aquilo que está guardado. Jogar palavras e frases para aqueles ou aquele que está ao lado. Mas quando chega a hora do outro falar sobre simplicidades do seu cotidiano, por exemplo, o foco muda e não existe mais espaço. Vira uma atividade solitária. Falar, se expor e perceber que não há escuta ou interesse. Como na música, são apenas palavras ao vento. Aos olhos do outro, descuidado, pode parecer besteira, que aquilo que está sendo contado não é nada demais. Na maioria das vezes é coisa demais, é importante demais. Experimente esquecer o celular, as mensagens, as atualizações. Quem importa, no momento, é quem está ali, não-virtual, que tem boca, ouvido e voz.
Cada um com seus problemas, com a importância de suas dúvidas, com a carga de seus sentimentos? Não deveria ser assim. É preciso compartilhar. Que haja mais respeito, amizade, atenção. Apure seus ouvidos para os seus amigos, parentes ou simplesmente conhecidos. Às vezes, três minutos de atenção exclusiva, sem desviar o olhar, ou um simples consentir com a cabeça ao final, podem aliviar muitas angústias. Escutar com cuidado. Ouvir sem censura. Procurar entender que naquele momento é melhor parar de falar, não interromper e saber a hora de se calar.
Falemos e escutemos uns aos outros, na mesma proporção.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pare e pense um pouco mais.
Andar na rua sem rumo. Ir sozinho ao cinema no comecinho da tarde. Sentar na areia e olhar o mar. Acender um cigarro e conversar com a lua. Preparar o café e bebê-lo ainda quente. Sentar na poltrona e sentir o vento. Pegar sol.  É preciso ficar sozinho de vez em quando. Deixar as emoções aparecerem até que desabrochem. Quando se está em movimento não se consegue perceber o que acontece ou aconteceu lá dentro. Vivemos em um estado constante de transformação. Todo e qualquer acontecimento externo tem repercussão direta no que somos. Em tempos de dinamismo, parar para se observar é raro. Eu, pessoalmente, sinto falta e acredito na importância desse momento. Podemos continuar levantando e deitando todos os dias sem, ao menos, lembrar do que foi feito no dia anterior. É claro que podemos. Até chegar o momento em que semanas e meses se passaram, e não foi possível compreender, digerir ou refletir sobre nada.
Os dias são curtos, eu sei. Para alguns eles deveriam ter, no mínimo, trinta e seis horas. Basta valorizar alguns minutos, ou aqueles dias em que, finalmente, pensamos: “não tenho nada para fazer”. Aproveite para se escutar. O corpo e a mente falam mais do que imaginamos. Eles nos dizem, através de alguns sinais, o que devemos ouvir. Faça uso do nada. A sensação é de estranhamento quando não há nenhuma responsabilidade ou prazo para cumprir. Quando não há nada realmente que fazer, parece que o tempo para, ou que corre mais ainda. Estamos sempre funcionando, somos feitos de pensamentos e emoções. Então, quando o nada chegar, use. Faça o que te der vontade, o que te possibilite parar e entrar em contato com você. Quando estamos com o outro, com o grupo, nos comportamos de maneira diferente. Não digo falsa, mas diferente e, quem sabe, superficial. Acredito que no momento do nada, da solitude, podemos, enfim, conhecer quem somos e o que queremos.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Tenho buscado inspiração para escrever ultimamente. Olhando textos escritos recentemente encontrei esse daqui. Acabei desistindo da inspiração. Nada será mais inspirador que essa viagem à África. Por enquanto, eu espero. Ainda tem muito mais por vir.

"Quando decidi viajar para África, minha frase era a seguinte: sei que não serei a mesma quando voltar. Demorou quase um mês para perceber a mudança. Senti, apreendi e guardei cada momento dentro de mim. Cada gesto, palavra, cheiro, sensação está guardada dentro de mim, o que fez com que eu me tornasse outra pessoa, talvez. É difícil voltar pra realidade. Para o lugar da onde eu quis fugir quando fui para lá.
Apesar de prever, eu não podia imaginar o que iria encontrar e, agora, olhando as fotos não posso medir o quanto foi intenso. O quanto fui feliz. O quanto fiz os outros felizes. Cada um tem seu valor nesse mundo, e lá eu pude perceber o meu, e mais do que isso, pude sentir que tenho valor para os outros. Eles demonstravam em cada palavra, cada carinho, cada sorriso. Porque lá eu pude ver que há um objetivo em tudo isso, há um por que.
Sinto falta de acordar e ter alguém na minha frente para me dar bom dia ou de simplesmente ouvir o despertador de alguém que tem que acordar pra fazer a mesma coisa que eu, junto comigo. Sinto falta de acordar lembrando que a noite passada foi ótima, que fiz o que queria fazer com quem queria. Sinto falta de acordar e ter porque acordar. Sinto falta de nunca estar sozinha. De despertar gargalhadas com uma simples cosquinha, de receber mil abraços a cada minuto. Sinto falta de comprar uma garrafa de vinho e ter mais três pra dividir com quatro pessoas. De o vinho acabar e a cerveja ser a melhor bebida do mundo. Do sofá que parecia tão pequeno para os quinze, mas que no final da viagem parecia imenso no vazio. Sinto falta de conversar, escutar e ficar em silêncio. Sempre com alguém, nunca sozinha. Sinto falta de preparar meu almoço com mais cinco ou seis pessoas na cozinha, de esquentar minha quentinha no micro ondas que demorava dez minutos para deixar a comida ao menos morna. Da fila para esquentar a comida. De brigar por espaço no sofá da salinha do hospital e depois olhar para o chão e lá ser o lugar mais confortável do mundo. Não há uma única coisa que eu não morra de saudade.
É impossível, foge ao meu controle não querer voltar pra lá a cada instante para reviver tudo, tudo. Sem mudar uma única vírgula. Tudo foi perfeito, como tinha que ser.
Não caberia em uma ou duas páginas o que nós vivemos lá. Acredito que tenha sido muito intenso e verdadeiro para cada um de nós, voluntários. Uma experiência como essa transcende as palavras. É muito sentimento, muita verdade, muito amor... "

domingo, 3 de junho de 2012

Afastar para juntar

Pra que tanta confusão? Por que tanta briga e desilusão? Seria mais fácil se houvesse paz e calma no nosso convívio. Não é preciso tanto peso e raiva em tudo que se faz. Tente relevar, pensar duas vezes antes de iniciar uma discussão. É um exercício constante, mas se feito com perseverança pode salvar muita coisa. Nada construído em cima de dor vai à diante. Lembre-se disso antes de julgar e esbravejar. Amor só funciona com amor. Carinho e afeto são capacidades daqueles que podem dar e receber isso. Raiva, desentendimento pode consumir suas horas e dias. O tempo é precioso para àqueles que têm pressa. Não há nenhum segundo a perder com aquilo que não te faz bem. Respire fundo e tente, se esforce, para ignorar o que o outro te traz de ruim. Não se pode controlar e reger as atitudes do outro, mas a nossa é mais do que possível, é necessário. Quando você vem me diminuir, despejar aquilo que faz mal tento, a partir de agora, deixar de lado, bem longe do lado de dentro. Já aceitei muito, calei me, guardei em algum lugar do silêncio. Agora, tenho ouvido, voz e coração. Não posso mais querer o que quer me oferecer. Guarde para você. Sigamos separados, então. Cada qual com o que te faz sorrir, se sentir leve e a vontade. O tempo mostrou que não é um remédio tão eficaz. Ainda há marcas muito fortes que não precisam ser exaltadas. Deixe-as desaparecerem sozinhas. Deixemos a pressão, o medo e a dor para lá. Não precisamos nos dar mais isso. A fluidez das relações se da no instante de um sorriso, no momento do toque, do abraço sincero. Quando a memória é marcada pelo que saiu de errado, pelo que você ou eu não fizemos, é sinal de exaustão. O alarme grita, avisando que é suficiente, o limite chegou e não há como passar, não tem mais caminho pela frente. Persistir só demonstra o que não se quer enxergar. Não há tempo para chorar quando se pode sorrir e gargalhar. Sigamos em frente, prezando pelo bem. Constantemente, sem interrupção. O momento é agora. Planejar, sonhar, inventar o que se quer viver é frustrante. O passado não nos puxa ao presente, que tem de ser intenso e verdadeiro, para que o mesmo aconteça da maneira que vier.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Dudu e Didi. Ele tem onze anos, ela oitenta e oito. O menino vai a escola, toca violão e joga video game todos os dias. A senhorinha passa seus últimos dias no asilo. Ela deixa o lugar apenas em datas especiais e foi em um desses dias que os dois se encontraram. Dia das mães. Dudu chegou ao restaurante acompanhado dos pais e Didi dos netos. Sentaram um ao lado do outro. Nao tanto por coincidência, mais por conveniência. Velhos e crianças são categorias parecidas em uma mesa de restaurante, então, que sentem juntos. O almoço seguiu seu curso e os dois estranhos ainda nao tinham aberto a boca. Didi nao suportava mais o silêncio e começou a falar, sem nenhuma esperanca de ser escutada. Ela só precisava falar. Para sua surpresa Dudu a ouviu e mais, a respondeu. Ali começava um diálogo muito improvável, mas que se transformaria em uma amizade mais improvável ainda. Ela comentava de como se sentia sozinha e ele concordava, dizia que compreendia e até que sentia o mesmo. Didi por motivos externos havia sido isolada do mundo, enquanto ele se isolava todas as tardes no seu quarto, no seu mundo virtual. A velhinha ficou muito curiosa a respeito do tal video game. Dudu a explicou como tudo funcionava, da maneira mais didática possível. Ela ficou impressionadíssima. "Como esse mundo mudou, meu filho!" Ele ria, achava graça daquela senhora que mais parecia ter saído de um filme de época. E ela, não se entendia mais no mundo novo, do lado de fora de seu quarto do asilo. Ao fim do almoço ela o abraçou e pediu que, se fosse possível, ele um dia a ensinasse a jogar "aquele joguinho de mentira". Ele ficou na dúvida e, por educacao disse a senhora que o faria. Voltando ao asilo, Didi disse aos netos que havia conversado muito com um jovem rapazinho esquisito, que brincava com coisas estranhas ao invés de jogar bola na rua. Dudu comentou com os pais em casa de como a velhinha era engraçada, parecia ser de outro mundo, nao entendia ou conhecia nada. A vida de cada um seguiu normalmente depois daquele dia. Dudu não foi visitá-la. Ela também nem se lembrou, a memória nao era mais lá essas coisas. No ano seguinte, o bendito almoço se repetiu. Foi aí que o menino lembrou do ano anterior e perguntou pela dona Edi. Ela não queria mais sair. Assim que terminaram de almoçar, os pais de Dudu o levaram ao encontro da senhora. Os dois passaram o resto da tarde juntos. Ele, aos doze, a ensinou como se brinca nos dias de hoje. Ela, aos oitenta e nove, contava o que a vida, gentilmente, a havia ensinado."

domingo, 6 de maio de 2012

Tenho a sensação de que a vida é um circulo vicioso, que por mais que a gente se esforce, ache que mudou, acaba repetindo as mesmas ações de tempos em tempos. E com elas, reproduzindo as mesmas sensações, pensamentos. Dizem que precisamos aprender a partir dos erros. Mas e quando os erros se repetem e você não consegue aprender, só sofrer por eles? É difícil, frustrante, angustiante. Desistir? Ficar lá no erro? Não sei... Acho que um dia a gente aprende. Pelo menos assim espero.
O pior, ou melhor, nessa história toda, é que não repetir o erro depende só da gente. Nós somos protagonistas, roteiristas e diretores da nossa vida. Temos livre arbítrio para agir da maneira que quisermos. Então, parece meio estranho continuarmos a errar. Por que persistimos no erro? É como se uma força estranha girasse em torno de nós e, quando nos damos conta, estamos lá fazendo aquilo que repreendemos tanto.
Depois que o tal do erro foi cometido, é penoso parar para pensar nele. Dói, confunde. Mas é ai que entra a parte de aprender com o erro. Por mais difícil que seja repensar o que foi feito, é necessário, para que esse sentimento ruim não se repita. Para que um dia você possa rir do que fez e pensar: “Que bom, não faço mais isso. Amadureci.”

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Semana passada meus avós fizeram sessenta anos de casados. É, isso mesmo. Sessenta anos juntos, além daqueles de namoro e noivado. Tiveram três filhos, minha mãe, meu padrinho e meu tio. Todos casaram, tiveram filhos e foram viver em algum lugar, do seu jeito. Apesar de irmãos, tornaram-se pessoas bem diferentes daquelas três crianças que viveram juntos em Niterói, Angra dos Reis, Salvador, Estados Unidos e Brasília.
Por conta da idade, talvez, eu e os filhos do meu padrinho crescemos juntos. Inseparáveis. Mesmo que separados pela ponte Rio - Niterói, nós compartilhamos muitos momentos de alegria. Prainha, Piraquê, Friburgo, casa da vovó, e por aí vai... Assim como aconteceu com minha mãe e meus tios, nós crescemos e construímos nossas vidas. Tornamos-nos pessoas diferentes daquelas três pestes. Cada um seguiu seu caminho, do seu jeito.
Apesar das transformações que a vida nos impôs, os almoços e lanches continuam sagrados na casa da minha avó. A varanda é a mesma, as bolinhas de queijo, a torta de limão. A oração no natal é feita da mesma forma que era há quinze anos. Todos juntos, de mãos dadas e olhos fechados. A confusão para a entrega dos presentes também nunca mudou. “Primeiro o filho mais velho! Não, são os donos da casa!” E assim, a entrega flui, até que todos fiquem devidamente presenteados e o almoço possa ser servido. Almoço não. O banquete de sempre, com comida para alimentar três vezes a nossa família, que acaba sempre aglomerada na cozinha preparando suas quentinhas.
Meus avós brigaram, com certeza, não se suportaram em algum momento. Mas quando os vi, entrando no salão de mãos dadas, dançando, cortando o bolo, percebi que os anos não foram capazes de apagar aquele casal de 1952. Eles continuam se amando. Um amor mais maduro, sem dúvida. Mas um amor que une, que apóia, que consola. E é por causa desse sentimento que hoje, meus tios, minha mãe, meus primos, eu e meu irmão estamos aqui. Todos cresceram, tomaram caminhos diferentes, mas carregando o que eles nos ensinaram.
Durante o ano quase não nos vemos mas, quando chega o natal a família se constitui novamente, graças a eles. Além de admirá-los pela força, pelo amor, sou muito grata aos meus avós. Eles nos ensinaram o sentido de família, de união e compaixão.
E que venham os setenta anos!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Há sentimentos que não controlamos, não sabemos explicar como são e nem mesmo porque eles surgem. Isso pode angustiar muito. Nós, seres humanos, temos a mania de querer racionalizar tudo e, se não conseguimos, logo surtamos. Esse tipo de sentimento não tem explicação racional. Ele simplesmente acontece, e só vai embora quando quer.
É como se ele se apropriasse do nosso corpo, mudasse nosso estado físico e emocional sem pedir permissão. Mesmo que você queira se despedir desse intruso, é impossível. Por isso, ultimamente, prefiro aceitá-lo. Deixar que tome conta de mim, das minhas horas, dos meus pensamentos. Tento tirar algum proveito dele. E é por isso que escrevo.
Quando a cabeça começa a pesar, os pensamentos tiram o sono, escrevo. Assim como agora. Para tentar aliviar alguma tensão ou entender o que parece incompreensível. Quase sempre é em vão. As coisas continuam incompreensíveis, mas alguma parte da confusão saiu de mim. Abriu espaço para novas bagunças mentais.
Acredito que seja sempre assim. Muitas vezes não entendemos o que sentimos, mas de alguma forma conseguimos aliviar a tensão, para depois não entender nada de novo.  E que monotonia seria se entendêssemos tudo! O gostoso da vida são essas oscilações de sentimento. Busquemos sempre pela compreensão, mesmo que nunca a encontremos. No meio do caminho algo novo pode surgir...

terça-feira, 10 de abril de 2012

“Queridas enfermeiras e crianças,
Não quero que pensem que me esqueci de vocês. Na verdade, penso em vocês quase todo dia. Queria agradecer por cada momento, cada coisa que me ensinaram. Aprendi que a vida deve ser vivida com um sorriso no rosto mesmo com todas as dificuldades que aparecerem no caminho. Aprendi a dar valor as mínimas coisas da vida. Um chocolate pode ser a melhor coisa do dia, da semana. Pintar as unhas de rosa – meninas e meninos – é um luxo que será pode ser comemorado pelo mês todo.
Queria dizer que vocês não devem desistir nunca. Enfermeiras, vocês apesar de parecerem mal humoradas de vez em quando, fazem um trabalho incrível. Cuidam das crianças como se fossem suas. Entendo perfeitamente quando no inicio nos tratavam com uma certa desconfiança. Nós voltamos para nossas casas enquanto vocês continuam aí na batalha. Dando remédio na hora certa, dando bronca, alimentando, se despedindo. Admiro cada uma  de vocês. Por dedicar uma vida a crianças que não tem a mínima perspectiva de futuro.
Já vocês meus amores... Não tenho nem palavras para descrever o amor que criei por vocês em apenas três semanas. Lembro de cada um, cada rostinho, cada nome. Se pudesse estaria aí, abraçando e beijando vocês a manhã e tarde inteira. À vocês quero pedir também que nunca desistam. Vocês mesmo tão pequenos, sem nem mesmo perceber, me ensinaram muito sobre o sentido de viver. Continuem brincando, tomando banho de mangueira, pulando, berrando e chorando. Porque cada dia, cada minuto é único e deve ser vivido. Amo cada um como se fosse meu. Daqui do Brasil estarei torcendo pela felicidade de cada um. E sempre, sempre, pensando em vocês, morrendo de saudades.
Se tem alguém a quem devo agradecer são vocês enfermeiras, funcionários do hospital e as minhas lindas crianças. A minha viagem valeu a pena porque vocês fizeram parte dela. Nunca vou esquecer seus nomes, suas histórias, nossas histórias, abraços e carinhos.
Obrigada, obrigada, mil vezes obrigada!”

sábado, 31 de março de 2012

Venho reclamando muito ultimamente da quantidade de coisas que tenho que fazer. Das obrigações, da pressão. Durante a semana o sono é meu melhor companheiro, não desgruda nem por um segundo. Os livros, os textos, os trabalhos parecem intermináveis. E apesar de todas as reclamações, está sendo maravilhoso. É como se agora eu pudesse entender o que realmente era o meu desejo. O que eu queria ser quando crescer.
Pode parecer besteira, mas a maioria das pessoas sabe o quanto é difícil escolher uma profissão pra vida toda. É uma escolha muito dura, chega a dar medo na gente. No primeiro vestibular tinha dezessete anos e decidi fazer psicologia. O motivo pelo qual tomei essa decisão foi a minha vontade de ajudar os outros e, principalmente as crianças. Achava que através da psicologia eu fosse capaz de diminuir o sofrimento das pessoas. Só não percebi que estava deixando um pouco de lado o que gostava de fazer: ler e escrever. E assim foi. No segundo semestre de 2009 começaram as aulas. E eu era a mais nova estudante de psicologia da UFRJ, e como me orgulhava desse status. Os meses foram se passando e cada vez mais eu percebia que tinha algo fora do lugar. Pouco ou quase nada me encantava no curso. Às vezes me sentia um peixe fora da água. Primeiro estágio: um ou dois meses e desisti. Segundo estágio: um ou dois meses e desisti. Faltava algo. Eu não me via produzindo. A minha necessidade de produzir, de ver as coisas acontecer é urgente. Não sou do tipo calma, paciente, daquelas que escuta. Sou do tipo que fala, que quer mudar o que acha errado, e rápido se possível. A psicologia não me ofereceu isso. Eu não sou do tipo psicóloga.
Demorei dois anos para perceber que o que me faltava na psicologia, poderia encontrar na comunicação. E assim decidi trancar o curso para fazer vestibular de novo. Foram três meses de curso pré-vestibular. Pode parecer pouco tempo, mas para uma geminiana um dia já é suficiente para mudar de idéia sobre qualquer assunto. Mas não. Agora com vinte anos eu tinha plena certeza do que queria fazer. Quero escrever para que os outros possam saber de coisas que eles nunca imaginariam, quero descobrir o que eu nunca imaginei saber, quero contar histórias, quero denunciar o que estiver errado, quero ir atrás da mudança. Portanto, quando me pego reclamando da intensidade do curso de jornalismo, paro, penso e sigo em frente. Foi isso que escolhi, é essa a dinâmica que quero e preciso daqui pra frente.
 Aprendi com essa experiência que nunca é tarde para buscar o que se quer. Errado seria ver o tempo passar e com ele o meu sonho. Se precisar mudar, mude. Pode ser que mude dez vezes. Mas isso não é problema. Problema é ficar na ilusão, ficar no sonho. Arriscar a mudança sempre vale a pena.

sexta-feira, 23 de março de 2012

E depois de assistir "KONY 2012"?
Há algumas semanas o vídeo KONY 2012 se tornou um hit da internet. Todos assistiram, compartilharam, e se revoltaram. Além dos milhares de acessos ao youtube, o vídeo gerou muita polêmica. Há quem diga que foi tudo uma armação. Uma jogada dos EUA para poder justificar uma possível invasão militar em Uganda. Já que a sociedade quer deter KONI, nada mais justo que o exercito americano aportasse em terras africanas para proclamar a paz. Assim como na invasão ao Iraque e ao Afeganistão, a estratégia é identificar um vilão. E depois ir atrás dele no seu respectivo país. Ele foi descoberto e mostrado ao mundo inteiro, seu nome é Joseph Kony. Os argumentos podem até fazer sentido, mas se é ou não parte da tal teoria da conspiração ninguém nunca terá certeza.
Outra questão que surgiu após o fenômeno KONY é resumida de maneira irônica nesta frase: “you retweet and post on facebook about Kony 2012? Tell me more about how you´ve always cared about the ugandan kids.” De maneira irônica a frase provoca outra pergunta: E você, o que tem feito pelas crianças africanas além de compartilhar um vídeo? Mostrar-se consciente através das redes sociais, compartilhar links, e vídeos relacionados ao tema é importante, mas não é suficiente. A questão não é simples. Uma, dez ou um milhão de pessoas talvez não sejam capazes de mudar isto. No entanto, ficar parado, sem dúvida alguma, também não. Se você acha que alguma coisa está fora da ordem, vá atrás do que acha certo. Falar, se revoltar sem sair do lugar não muda nada.
O vídeo mostrou o que já vem acontecendo a décadas na África. Independente do objetivo com o qual o vídeo foi criado, ele chama a atenção para uma realidade que muitos não conhecem. Para quem se interessar pelo assunto e quiser entender melhor o que as crianças retratadas no documentário sentem, indico um livro chamado “Muito longe de casa”. Ishmael Beah foi um menino soldado em Serra Leoa e ao longo do livro ele relata com todos os detalhes como foi sua infância – se é que matar, roubar e se drogar faz parte do que é considerado infância.
Espero que a atenção para o que acontece na África não dure apenas 30 minutos como no vídeo.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Tudo começou com uma vontade absurda de fugir da minha realidade. Pensei, pensei e resolvi concretizar um sonho de muitos anos. Trabalho voluntário na África. E assim fui atrás de preço, projetos, datas. Duas semanas depois estava com as passagens na mão, mala pronta e aperto no coração. Estava ansiosa e morrendo de medo. Seria minha primeira viagem sozinha... e na África. Senti-me corajosa e percebi que teria de seguir assim até o ultimo momento. No dia 11 de janeiro embarquei com destino a Cidade do Cabo.
Foram três semanas morando em um albergue com outros doze voluntários – dez deles eram brasileiros. Dividindo quarto, comida, experiências. O dia começava às oito horas da manhã com destino ao hospital Sarah Fox em Athlone, um bairro um pouco afastado. O trabalho começava as nove e ia até as quatro da tarde. Lá eu e mais oito brasileiros tínhamos como trabalho cuidar de crianças em fase de recuperação. As crianças lá internadas sofriam de alguma doença –a grande maioria AIDS e tuberculose- ou haviam sofrido abuso sexual ou passavam por sérios problemas em casa. Enfim, a melhor solução era ficar no hospital até que surgisse uma oportunidade melhor.


No primeiro dia, uma enfermeira me deu a mão de uma menina bem magrinha com o cabelo raspado, dentes escuros e disse: “Toma, ela é cega.”. Respirei fundo e pensei que aquele seria o meu dia a dia, não poderia me abalar logo no primeiro momento. Coloquei a menina sentada no banco ao meu lado e tentei conversar em inglês. Para minha surpresa –pois lá a maioria das crianças fala xhosa, e não inglês- ela começou a cantar uma música linda e em um inglês perfeito. As lágrimas foram inevitáveis. Naquele momento tive uma amostra do que seriam as próximas semanas mais bonitas da minha vida.
Logo de cara me apaixonei por uma gordinha que não tirava o sorriso do rosto por nada, mesmo com todas as outras vinte crianças esperneando, ela continuava sorrindo. Sempre com os bracinhos abertos esperando alguém que a abraçasse. Não precisava de colo, atenção integral. Um beijo na maior bochecha que já vi era suficiente para Sinawo. A primeira semana foi ao lado dela, brincando, colocando no colo, defendendo dos outros meninos, tirando foto. Até que sua mãe apareceu para levá-la embora. Novamente as lágrimas foram mais fortes que a razão. Tranquei-me no banheiro para não ver sua partida. Dizer adeus naquele momento ia doer muito. Para que fique claro, os pais são autorizados a levar as crianças para passar o final de semana com a condição de deixá-los no hospital segunda feira da mesma forma que partiram, alimentados e remediados. Quando voltei do almoço Sinawo estava lá, me esperando com os olhinhos cheios de lágrima e as mãozinhas inquietas pedindo colo. Perguntei a enfermeira o que havia acontecido e ela me respondeu que a assistente social não havia permitido a saída para o final de semana. A mãe da menina não estava apta a cuidar da filha no final de semana. Nem gosto de imaginar o porque. Sinawo não pareceu ter se importado muito, e alguns minutos depois já estava brincando de novo como se nada tivesse acontecido. Meu amor por ela, o carinho, só aumentavam. Até que sua mãe voltou. Grande, gorda, com aqueles vestidos longos e estampados, lenço na cabeça, pisando firme. Abriu a portinha da sala de recreação, pegou Sinawo pelos braços e a levou. Simples assim. Enquanto ela olhava para mim, gritando “mamy, mamy”, chorando, meu mundo caiu. Sai correndo para o banheiro de novo e chorei como se tivesse perdido alguém muito próximo. E foi o que de fato aconteceu. Minha Sinawo estava indo embora.

domingo, 18 de março de 2012

Desde criança gostei de escrever. Comecei com as poesias e até hoje minha avó as tem guardadas. Os anos se passaram e fui desistindo da poesia. Uma professora da quinta série se não me engano, obrigou a minha turma a fazer um diário. Toda semana tínhamos que mostrar o diário completo, valendo nota. Começou como uma obrigação que logo se transformou em uma atividade prazerosa e hoje é viciante. O diário se tornou um companheiro, um amigo muito compreensivo. Ele não diz nada, mas é justamente o seu silêncio que faz com que eu consiga compreender melhor minhas confusões. A criação desse blog foi baseada nessa minha necessidade de escrever. E mais ainda. Nesse ano, tive a coragem de mudar de curso na faculdade. Estudava psicologia e mudei para o jornalismo. O detalhe de ter tido a “coragem de mudar para o jornalismo” fica para outro post. Portanto, mais que a necessidade de escrever para me entender melhor, surge agora a exigência da profissão. Todo jornalista que se preze deve escrever minimamente bem. Pretendo usar esse blog como um exercício para um dia alcançar esse mínimo. Minha avó continua achando que sou poeta. E eu vou sempre acreditar nela.