Eles vieram me visitar. Passaram a semana inteira comigo.
Preparei suas refeições, os alimentei do mesmo jeito que fazia meses atrás.
Brincamos todos os sete dias, como se não houvesse medo ou doença que impedisse
esse contato. Botei no colo, nas costas, fiz cosquinha na barriga... O carinho
era o mesmo, os sorrisos não mudaram em nada. Eram as minhas crianças, os anjos
que tive que deixar na África. Assim como na vida real, tivemos que nos
despedir. Não sei qual despedida foi mais dura. No sonho desta noite eram eles
que partiam e me deixavam aqui, impotente diante do adeus. “Vocês vão me deixar?”
perguntava eu a mais velha. Ela me responde com um sim mudo. E assim foram de
mãos dadas pela porta da minha casa. O inconsciente prega cada peça na gente...
Nunca vou deixá-los. Estão entranhados em minha alma, no meu
coração. Cada gesto, cada palavra não pronunciada ou compreendida de vocês,
construiu quem sou e o que quero ser daqui para frente. Agora posso compreender
o que é UBUNTU. Compreendo que, assim como “saudade” é uma palavra e um
sentimento puramente brasileiro, Ubuntu é Africa. Não tem explicação, tradução,
não é mensurável. O significado dessa ideologia só pode ser entendido quando vivido,
experenciado na pele do abraço. Ubuntu, meus amores, minha vida, foram vocês
que me ensinaram, sem que pudessem perceber.