Tudo começou com uma vontade absurda de fugir da minha realidade. Pensei, pensei e resolvi concretizar um sonho de muitos anos. Trabalho voluntário na África. E assim fui atrás de preço, projetos, datas. Duas semanas depois estava com as passagens na mão, mala pronta e aperto no coração. Estava ansiosa e morrendo de medo. Seria minha primeira viagem sozinha... e na África. Senti-me corajosa e percebi que teria de seguir assim até o ultimo momento. No dia 11 de janeiro embarquei com destino a Cidade do Cabo.
Foram três semanas morando em um albergue com outros doze voluntários – dez deles eram brasileiros. Dividindo quarto, comida, experiências. O dia começava às oito horas da manhã com destino ao hospital Sarah Fox em Athlone, um bairro um pouco afastado. O trabalho começava as nove e ia até as quatro da tarde. Lá eu e mais oito brasileiros tínhamos como trabalho cuidar de crianças em fase de recuperação. As crianças lá internadas sofriam de alguma doença –a grande maioria AIDS e tuberculose- ou haviam sofrido abuso sexual ou passavam por sérios problemas em casa. Enfim, a melhor solução era ficar no hospital até que surgisse uma oportunidade melhor.
No primeiro dia, uma enfermeira me deu a mão de uma menina bem magrinha com o cabelo raspado, dentes escuros e disse: “Toma, ela é cega.”. Respirei fundo e pensei que aquele seria o meu dia a dia, não poderia me abalar logo no primeiro momento. Coloquei a menina sentada no banco ao meu lado e tentei conversar em inglês. Para minha surpresa –pois lá a maioria das crianças fala xhosa, e não inglês- ela começou a cantar uma música linda e em um inglês perfeito. As lágrimas foram inevitáveis. Naquele momento tive uma amostra do que seriam as próximas semanas mais bonitas da minha vida.
Logo de cara me apaixonei por uma gordinha que não tirava o sorriso do rosto por nada, mesmo com todas as outras vinte crianças esperneando, ela continuava sorrindo. Sempre com os bracinhos abertos esperando alguém que a abraçasse. Não precisava de colo, atenção integral. Um beijo na maior bochecha que já vi era suficiente para Sinawo. A primeira semana foi ao lado dela, brincando, colocando no colo, defendendo dos outros meninos, tirando foto. Até que sua mãe apareceu para levá-la embora. Novamente as lágrimas foram mais fortes que a razão. Tranquei-me no banheiro para não ver sua partida. Dizer adeus naquele momento ia doer muito. Para que fique claro, os pais são autorizados a levar as crianças para passar o final de semana com a condição de deixá-los no hospital segunda feira da mesma forma que partiram, alimentados e remediados. Quando voltei do almoço Sinawo estava lá, me esperando com os olhinhos cheios de lágrima e as mãozinhas inquietas pedindo colo. Perguntei a enfermeira o que havia acontecido e ela me respondeu que a assistente social não havia permitido a saída para o final de semana. A mãe da menina não estava apta a cuidar da filha no final de semana. Nem gosto de imaginar o porque. Sinawo não pareceu ter se importado muito, e alguns minutos depois já estava brincando de novo como se nada tivesse acontecido. Meu amor por ela, o carinho, só aumentavam. Até que sua mãe voltou. Grande, gorda, com aqueles vestidos longos e estampados, lenço na cabeça, pisando firme. Abriu a portinha da sala de recreação, pegou Sinawo pelos braços e a levou. Simples assim. Enquanto ela olhava para mim, gritando “mamy, mamy”, chorando, meu mundo caiu. Sai correndo para o banheiro de novo e chorei como se tivesse perdido alguém muito próximo. E foi o que de fato aconteceu. Minha Sinawo estava indo embora.
AMEI! Chorei. Posta mais hein!
ResponderExcluirTão bonito esse amor, Paula. Mas senti-lo à flor da pele, na ternura do sorriso da Sinawo - e todas as outras que esperneavam - deve ser algo muito emocionante. E novo... As lágrimas sempre vencerão a razão. Que bom, né?
ResponderExcluirBeijo!
:O Nossa, fiquei sem palavras, sério, muito bonito... Linda iniciativa, o mundo precisa de mais gente assim =)
ResponderExcluirQue coisa linda Pau, escreve mais sobre o trabalho na Africa, a Sinawo e as outras criancinhas!
ResponderExcluirAmei Paulinha,sem palavras só desejando sucesso!!!!
ResponderExcluirQuerida Ana Paula.PARABENS!Linda sua escrita e inspirador p muitos vc compartilhar experiencia taõ valiosa.BJS.LIDIA.NAMASTE
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