quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Dudu e Didi. Ele tem onze anos, ela oitenta e oito. O menino vai a escola, toca violão e joga video game todos os dias. A senhorinha passa seus últimos dias no asilo. Ela deixa o lugar apenas em datas especiais e foi em um desses dias que os dois se encontraram. Dia das mães. Dudu chegou ao restaurante acompanhado dos pais e Didi dos netos. Sentaram um ao lado do outro. Nao tanto por coincidência, mais por conveniência. Velhos e crianças são categorias parecidas em uma mesa de restaurante, então, que sentem juntos. O almoço seguiu seu curso e os dois estranhos ainda nao tinham aberto a boca. Didi nao suportava mais o silêncio e começou a falar, sem nenhuma esperanca de ser escutada. Ela só precisava falar. Para sua surpresa Dudu a ouviu e mais, a respondeu. Ali começava um diálogo muito improvável, mas que se transformaria em uma amizade mais improvável ainda. Ela comentava de como se sentia sozinha e ele concordava, dizia que compreendia e até que sentia o mesmo. Didi por motivos externos havia sido isolada do mundo, enquanto ele se isolava todas as tardes no seu quarto, no seu mundo virtual. A velhinha ficou muito curiosa a respeito do tal video game. Dudu a explicou como tudo funcionava, da maneira mais didática possível. Ela ficou impressionadíssima. "Como esse mundo mudou, meu filho!" Ele ria, achava graça daquela senhora que mais parecia ter saído de um filme de época. E ela, não se entendia mais no mundo novo, do lado de fora de seu quarto do asilo. Ao fim do almoço ela o abraçou e pediu que, se fosse possível, ele um dia a ensinasse a jogar "aquele joguinho de mentira". Ele ficou na dúvida e, por educacao disse a senhora que o faria. Voltando ao asilo, Didi disse aos netos que havia conversado muito com um jovem rapazinho esquisito, que brincava com coisas estranhas ao invés de jogar bola na rua. Dudu comentou com os pais em casa de como a velhinha era engraçada, parecia ser de outro mundo, nao entendia ou conhecia nada. A vida de cada um seguiu normalmente depois daquele dia. Dudu não foi visitá-la. Ela também nem se lembrou, a memória nao era mais lá essas coisas. No ano seguinte, o bendito almoço se repetiu. Foi aí que o menino lembrou do ano anterior e perguntou pela dona Edi. Ela não queria mais sair. Assim que terminaram de almoçar, os pais de Dudu o levaram ao encontro da senhora. Os dois passaram o resto da tarde juntos. Ele, aos doze, a ensinou como se brinca nos dias de hoje. Ela, aos oitenta e nove, contava o que a vida, gentilmente, a havia ensinado."

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